O tempo da pandemia do COVID-19 está nos ajudando a rever muitos comportamentos. Educamos nossa vida para que? Para termos somente mais “inteligência” ou também para termos mais “vontade”?

De repente percebemos que estamos demasiadamente focados na educação da inteligência. O nosso mundo já está direcionado quase que exclusivamente para educar a inteligência. Porém, só focando a inteligência na educação, isso prepara-nos para ceder o nosso ser aos “valores vigentes” do “ganho desenfreado”, da “competição selvagem”, da “satisfação egoísta”. A própria inteligência é, assim, escravizada, condicionada e ensimesmada. Passamos a vida em função do dinheiro, do poder e do consumo, como se esses movimentos fossem quase absolutamente indispensáveis para a sobrevivência e a felicidade. O projeto educacional deve estar primordialmente a serviço de um sistema mercadológico vigente?

Estamos olvidando cada vez mais a educação da vontade. E sabemos que são necessários os dois processos educativos que formam integralmente a pessoa humana: a educação da inteligência e a educação da vontade.

Se a inteligência (inter + legere = ler dentro) nos permite mais eficácia, rapidez e resolução no progresso humano, porém é a vontade que vai conduzir o “ler dentro” para as direções humanas e sociais fundamentais e essenciais. Um ser inteligente pode desenvolver-se para o bem ou para o mal; podemos desenvolver nossa inteligência para sermos os melhores ou piores seres humanos e sociais.

A educação da vontade forma o ser humano e social por inteiro, permitindo o bom relacionamento com os outros seres humanos e sociais. Só a educação da vontade gera pessoas integrais que não quebrarão uma corrente religiosa, cultural, política, jurídica, ecológica saudável e verdadeira. Infelizmente, aumenta nos dias atuais o número de pessoas com “inteligência” e “vontade” doentias, frouxas, desiquilibradas e, consequentemente, a sociedade, como um todo, está doentia, frouxa e desiquilibrada.

A educação da vontade está ligada à gratuidade e à verdade da vida. Em si, viver é o maior valor. A vida, portanto, nos é presenteada, e nossa resposta deverá ser desinteressada e verdadeira. Buscar só ganho, poder e consumo, é um desvirtuamento da vida e cria doenças e desilusões.

A educação da vontade exige, diariamente, exercícios de atenção e cuidado sábios que nos conduzem à verdade e à beleza da vida. Precisamos, urgentemente, exercitar-nos para estarmos atentos e cuidarmos de nós mesmos nos mínimos e máximos aspectos. Afinal, cada um, cada uma de nós, somos criados à “imagem e semelhança de Deus”: não temos o direito de manchar em nós a divina imagem e desvirtuar a divina semelhança. Precisamos, urgentemente, exercitar-nos para estarmos atentos e cuidarmos dos outros com permanente sensibilidade. Afinal, os outros são nossos “irmãos e irmãs” e “moradas de Deus”: não temos o direito de viver socialmente em contínua guerra, onde a única máxima é: homo homini lúpus est. Precisamos, urgentemente, exercitar-nos para estarmos atentos e cuidarmos da criação com o máximo de senso ecológico. Afinal, tudo o que foi criado, o Criador presenteou-nos para termos vida e sobrevida dignas:  não temos o direito de destruir a “Casa Comum”. Precisamos, urgentemente, exercitar-nos para estarmos sempre atentos e cuidarmos do próprio Deus em nossa vida. Afinal, Ele é o princípio, o fim e o sentido maior do nosso existir: não temos o direito de estragar a razão e o sonho de felicidade de Deus para conosco. 

Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo Metropolitano da Igreja Católica de Pelotas

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