A Campanha da Fraternidade faz parte do modo como a Igreja de Cristo vive o Tempo da Quaresma. Desde 1962, quando foi iniciada, ela tem marcado a celebração quaresmal e deixado contribuições para a Igreja de Cristo e a sociedade brasileira. Ensinando a obter a conversão no seu sentido mais amplo, desde o nível pessoal até o social e, mais recentemente, o sócio ambiental, a Campanha da Fraternidade nos ajuda a enfrentar o pecado com os pés no chão. Indica-nos, a cada ano, uma situação específica para que, por meio dela, possamos ir até as causas mais profundas, tanto pessoais como estruturais.

 A Campanha da Fraternidade/2020 tem como tema “Fraternidade e Vida: dom e compromisso” e como lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”, texto bíblico recolhido da Parábola do Bom Samaritano – Lc 10,33-34.

A vida é, pois, o grande tema da CF/2020. O ponto de partida é a pergunta pelo motivo de esse tema da vida ter novamente recebido destaque (ela já tem aparecido nas CsF/1974,1984 e 2008). Ocorre, bem sabemos, que, apesar de tanta insistência na defesa da vida e na promoção da vida, essa se encontra cada vez mais ameaçada. Pobreza, exclusão, devastação (ambiental), violência, combate, destruição…são realidades que vemos crescer a cada dia ao nosso redor. Junto com esses fatos, deparemo-nos com um risco que está se tornando regra. Trata-se da indiferença em face de tanta dor, tanta maldade, tanto pecado, tanta morte. Ficamos com a impressão de que o nosso tempo perdeu a sensibilidade em relação a agressão à vida que está ao lado, clamando nas portas de nossas casas, como o pobre Lázaro, acolhido pelos cachorros que se mostraram mais sensíveis do que o homem que ali residia – conforme narra o Evangelho de Lucas, capítulo 16, versículos 19 a 31. Vemos crescer uma mentalidade que, nos casos mais agudos, já não manifesta a menor preocupação com a vida própria e dos semelhantes, com os rumos da sociedade e com o futuro do planeta. Mostra que o pecado é sempre uma agressão à vida, e vice-versa, que toda agressão à vida é sempre pecado.

É por isso que a CF/2020 fala, sem dúvida, aos corações humanos, questionando-os a respeito do pecado como agressão à vida. Fala à sociedade, lembrando as inúmeras situações que agridem o ser humano e a vida em geral. Fala também à uma mentalidade que vai encontrando justificativas para já não se preocupar com a vida, sobretudo com a vida ameaçada, agredida, destruída e “matada”.

A CF/2020 quer novamente propor a “vida como um Dom e Compromisso” de todos nós, chamando a atenção para a “cultura de morte” e para a “globalização da indiferença”. E frente à “cultura de morte” (preocupação constante do Papa João Paulo II) e à “globalização da indiferença” (preocupação constante do Papa Francisco), a CF/2020 propõe um urgente antídoto: A COMPAIXÃO, essa que o Bom Samaritano teve com o caído à beira da estrada: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” – Lc 10,33-34.

Dom Jacinto Bergmann, Arcebispo da Igreja Católica de Pelotas

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