Por: Reinaldo Tillmann – Coordenador Cáritas/Pelotas

Introdução:

Este artigo tem três propósitos:
Relacionar as temáticas da Caridade e da Misericórdia principalmente a partir das visões dos papas Bento XVI e Francisco;
Trazer uma reflexão inicial sobre a importância do pobre como elemento central das reflexões acima;
Inaugurar um olhar atento para o chamamento doa Papa Francisco ao “ III Dia Mundial dos Pobres” em 17 de novembro de 2019.

Qual entendimento sobre Deus?

Acima de qualquer outro entendimento, somente pode ser entendido como amor.
“Deus é (o) amor”.
“O amor é Deus”
Pois este próprio Deus, que nem sempre se mostra “amoroso”, embora seja o próprio amor. Este mesmo Deus é sempre sim misericordioso, ou seja, está sempre pronto a perdoar, a acolher e receber de braços abertos quem demonstra algum “ato” de amor para com Ele e com os seus “semelhantes” compreendendo assim toda a humanidade independentemente de qualquer diversidade de etnia, gênero, política ou mesmo religiosa, pois indistintamente somos “semelhantes a Deus”.
O Papa Francisco reflete sobre a origem da palavra misericórdia em catequese na Praça do Vaticano
“A própria palavra “misericórdia” evoca um comportamento de ternura. O termo em hebraico, usado na Bíblia, significa entranhas e faz pensar em amor visceral materno. Deus está disposto a amar, proteger e ajudar, dando-Se todo por (todos) nós”.
O AMOR que define Deus é tão diverso e plural que o entendimento de misericórdia confere a Deus um rosto feminino, porém muito mais que uma feição a misericórdia define Deus enquanto sentido e sentimento.
Qual entendimento de Caridade e Misericórdia?

Assim como Deus, que é misericordioso se define como um Deus de amor, também a caridade vai se definir como uma atitude de amor divina frente à humanidade, mas realizada pelos homens na busca da libertação de toda a humanidade das mais diversas formas de opressão. A caridade jamais pode ser entendida como uma atitude emotiva ou até mesmo piedosa, mas que essencialmente não busca a transformação social, não tem como objetivo ou meta final a mudança estrutural e universal daquela situação individual/específica que motiva uma atitude emotiva ou piedosa, A caridade tem que ser “verdadeira” com Deus e não alardeada como um ato de bondade por parte de quem a realiza, portanto a verdadeira caridade “move montanhas”, mas as move sem os estrondos de máquinas e operários e sim as move “como quem ouve uma sinfonia” (referência à Lulu Santos)
Interessante como os papas Francisco e seu antecessor Bento XVI se completam ou complementam nestes desígnios sobre a caridade:
– Bento XVI realça em sua segunda encíclica “Caritas in Veritate” que a caridade tem de ser autêntica e verdadeira aos olhos de Deus e Francisco em importante catequese na Praça do Vaticano já ressaltava que a caridade não pode ser hipócrita, ou seja, deve ser verdadeira. O Papa Francisco, inclusive, reafirma suas convicções e a pedagogia de Bento XVI em recente homilia por ocasião da XXI Assembléia Geral da Cáritas internacional, realizada no Vaticano de 23 a 28 de maio deste ano:
“Devemos estar sempre atentos para não cair na tentação de viver uma caridade hipócrita ou enganadora, uma caridade identificada com a esmola, com a beneficência, ou como uma “pílula calmante” para nossas inquietas consciências. Eis porque devemos evitar assemelhar o trabalho da caridade com a eficácia filantrópica ou com a eficiência de planejamento ou com a exagerada e efervescente organização

– O Papa Francisco diz claramente em aula proferida a estudantes e missionários da “Companhia de Jesus” que os cristãos não devem temer a política, mesmo que ela seja suja e corrupta, mas devem dela participar ativamente, visto que o exercício da política é uma das mais altas formas de exercer a caridade, pois representa a busca do bem comum. Vejamos o que diz Bento XVI sobre a caridade no item 07 da sua segunda encíclica:
“Depois (falava antes sobre justiça e caridade), é preciso ter em grande consideração o bem comum. Amar alguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum. É o bem daquele =nós todos=, formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social. Não é um bem procurado por si mesmo, mas para as pessoas que fazem parte da comunidade social que, só nela, podem realmente e com maior eficácia obter o próprio bem. Querer o bem comum e trabalhar por ele é exigência de justiça e de caridade….Este é o caminho institucional – podemos mesmo dizer político – da caridade, não menos qualificado e incisivo do que o é a caridade que vai diretamente ao encontro do próximo, fora das mediações institucionais da pólis.”

A misericórdia – como já falamos – representa a feição e os sentidos e sentimentos da figura e da essência Divina.
Vejamos como o Papa Francisco explica o significado de misericórdia na mesma catequese citada no início deste texto e descrita por “Vatican News” em janeiro/2016
“No livro do Êxodo, o Senhor se apresenta como “Deus misericordioso”. Com esse nome, Ele nos revela seu rosto e seu coração, rico em clemência e lealdade. Ele tem compaixão, está sempre disposto a acolher, a compreender e a perdoar, como o pai com seu filho pródigo… Outra virtude deste Deus misericordioso, disse o Papa, é que é “vagaroso ma ira”, isto é, tem grande capacidade de suportar, Ele sabe esperar, não é impaciente como os homens. Francisco explicou que Ele é como o agricultor que sabe esperar, deixa crescer o bom trigo e, por amor dele, não arranca sequer o joio. E enfim, o Senhor se proclama “grande no amor e na fidelidade”, exclamou o Papa, exaltando a beleza desta definição

Caridade e Misericórdia só podem ser entendidas a partir do Amor Divino, porém existem diferenças marcantes e decisivas de uma cristã ou de um cristão nestas duas definições enquanto “ações humanas”.
A Caridade – que só pode ser exercida por quem é misericordioso – é mais exigente que a misericórdia, por que a Caridade é amor e o amor é exigente (cfe. I Jo 04, 7.21). A Caridade precisa ser propositiva e jamais passiva, não pode esperar de braços abertos para acolher, receber. A prática da Caridade exige uma atitude superior e se possível anterior a todos os desígnios e palavras que contrariam uma sociedade amorosa, uma sociedade do bem viver. Neste sentido a epístola de João:
“Se alguém diz: Eu amo a Deus e aborrece seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E Dele temos este mandamento que quem ama a Deus, ame também a seu irmão.”

Qual entendimento de Caridade hoje?

O entendimento de Caridade passa necessariamente por entender quem é meu irmão que deve ser amado e logicamente esta resposta deve ser verdadeira (Bento XVI) e não pode ser hipócrita (Papa Francisco).
É preciso compreender os mecanismos de opressão sobre os sofredores, os últimos – como diz Francisco – e atuar fortemente nas entranhas (como a misericórdia) destes mecanismos a fim de promover a libertação destas engrenagens opressivas.
O irmão de hoje, por evidente, não é um indivíduo pobre que precisa de uma esmola, mas sim uma densidade populacional expressiva e que constitui a maioria da população deste planeta. Esta “irmandade” necessita de quem proteste junto com ela por políticas publicas indutoras de desenvolvimento econômico e social, de mecanismos de proteção ambiental, de atenção plena à saúde, educação e habitação popular.
Quem não enxerga esta conjuntura sócio econômica, bem como a urgente necessidade de “gritar’ por mudanças e “lutar” por este “grito de excluídos” de políticas públicas humanitárias certamente também não consegue ver o que é a Caridade e certamente também não conseguirá jamais ver a Deus, conforme nos ensina João em sua epístola e como diz o Papa Francisco na XXI Assembléia Geral da Cáritas Internacional:
“A caridade não é uma prestação estéril ou um simples óbolo a ser restituído para apaziguar a nossa consciência.”

CONCLUSÃO

Vivenciamos hoje um tempo de “globalização de misérias” no planeta terra (ambiental, econômica, social, ética), porém como um fator de agravamento desta conjuntura global aqui no Brasil também vivenciamos um processo intenso e pragmático do que se poderia chamar de “localização da crueldade”, justamente com os que mais precisam do apoio do Estado e suas políticas de assistência social e indução do desenvolvimento social e econômico. A crueldade se materializa, pois além de ausentar o Estado das políticas e áreas já citadas os atores públicos tem tratado os usuários destas políticas com desconsideração e desrespeito pela dignidade humana e condição de vulnerabilidade em que esta população se encontra.
A Caridade na conjuntura atual tem que se pautar pela exigência de um amor que denuncia, protesta e busca minimizar os efeitos daquela miséria global e desta crueldade local.
A Caridade – mesmo e sempre sob o prisma da misericórdia – precisa hoje contestar e lutar contra todas as crueldades impostas pelos atuais detentores do poder estatal e econômico que, por ironia ou destino, são justamente os que mais vão precisar daquela misericórdia divina, pois os pobres, vulneráveis e miseráveis não precisam dela – eles já a têm – e justamente são estes pobres (onde o Verbo se faz carne – João 1:14) que poderão ou não dar misericórdia a quem hoje impõe várias e impiedosas crueldades e somente oferecem esmolas.

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